domingo, 24 de janeiro de 2016

IV Prêmio Literário Cidade Poesia - Bragança Paulista/SP - 2015

O ESTRANHO

Tarde entediante no escritório. Os ponteiros do grande relógio na parede central pareciam zombar da minha vontade de ir embora.
O falatório de um grupo de engravatados em frente à máquina de café me chamou a atenção. Um dos homens pareceu me fitar. “Não pode ser” – pensei, incrédula. Disfarcei e olhei novamente. Aquele estranho estava me olhando acintosamente. Havia algo de familiar nele. Senti um arrepio capaz de eriçar até os meus cílios. Tentei me concentrar na tela do computador, sem sucesso.  Ele terminou o café e virou-se na minha direção. Estremeci.
  - O que eu faria se ele viesse até mim e dissesse “Boa tarde”.
 - Boa tarde, - responderia, tímida como sempre, lamentando os anos de terapia que paguei sem me transformar na mulher segura e extrovertida dos meus sonhos.
 - Você tem a cotação da soja de hoje? – perguntaria ele, para puxar conversa.
 - Tenho sim, está aqui no sistema – e naquele momento não conseguiria mais digitar, sequer lembraria da minha senha e sentiria as mãos suarem, num gotejar incômodo. Notando meu desconforto, ele pousaria suavemente sua mão sobre a minha e falaria com uma voz sonora e relaxante:
 - Não fique nervosa,  Bia, sou eu!
 - Você? Sabe que o esperei a vida toda? Por onde andou todo esse tempo? – perguntaria, já confessando os meus sentimentos, encorajada pelo semblante seguro e afável daquele homem.
 - Foram tantos caminhos desviados, tantas bifurcações e escolhas erradas, que pensei que nunca a encontraria, mas, agora que a encontrei,  nunca mais vou perder você de vista, - afirmaria ele. Emocionada, assentiria com a cabeça, enquanto uma lágrima placidamente deslizaria no meu rosto...
Naquele instante, o telefone tocou, fazendo com que eu saísse do meu momento de devaneio. Atendi, enquanto observava o homem jogando o copo de café no cesto de lixo e iniciando a caminhada até a minha mesa, mas naquele exato momento, o gerente da área o chamou e o levou para outro setor da empresa. Não o vi mais.
 O horário de saída chegou sem me deixar feliz.  Só pensava naquele homem.  Procurei por ele nas salas de reunião, na lanchonete em frente ao escritório, nas ruas movimentadas. Depois seguidamente, na minha rotina, nas noites vazias, nos sonhos secretos e até hoje, persistentemente, espero por ele, o homem que virá na minha direção com a certeza das coisas que têm que ser. O homem que vai mudar a minha vida.


Eliana Ruiz Jimenez
Selecionado para Antologia


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